Histórias do país de Helena




Havia marinheiros
No país de Helena
Que morriam ao pôr-do-sol

E havia Helena que sonhava
Fazer um dia tranças às ondas
E um berço muito grande para o mar


DANIEL FARIA
Oxálida
obra incluída em Poesia Daniel Faria


voz: Cristina Paiva

música: Pantha du Prince

sonoplastia: Fernando Ladeira

Café do molhe




Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

MANUEL ANTÓNIO PINA
Todas as Palavras, poesia reunida
Edição: Assírio & Alvim


voz: Cristina Paiva

música: Egberto Gismonti

sonoplastia: Fernando Ladeira

Soneto contra as pesporrências




É favor não pedirem a esta poesia
que faça o jeito às alegadas tendências
do tempo nem às vãs experiências
que sempre a deixaram de mão fria

o que iria bem mas mesmo bem seria
num jornal a coluna das ocorrências
as coisas da vida mais que as pesporrências
editoriais do comentador do dia

o que vai mal com ela são as petulâncias
de que se vestem muitas redundâncias
dando-se públicos ares de sabedoria

que o leitor farto das arrogâncias
magistrais troca por outras instâncias
onde pode mandá-las pra casa da tia

FERNANDO ASSIS PACHECO
A Musa Irregular


voz: Cristina Paiva

música: Erik Satie

sonoplastia: Fernando Ladeira

és / ás




és ar /serás fumo

és água /serás terra

és pedra /serás areia


DANIEL ABRUNHEIRO
http://canildodaniel.blogspot.com/


voz: Cristina Paiva

música: Savvas Ysatis + Taylor Deupree

sonoplastia: Fernando Ladeira

Sem Amor




Viver sem amor
É como não ter para onde ir
Em nenhum lugar
Encontrar casa ou mundo.

É contemplar o não-acontecer
O lugar onde tudo já não é
Onde tudo se transforma
No recinto
De onde tudo se mudou.

Sem amor andamos errantes
De nós mesmos desconhecidos

Descobrimos que nunca se tem ninguém
Além de nós próprios
E nem isso se tem.

ANA HATHERLY
A Neo-Penélope


voz: Cristina Paiva

música: Nils Frahm

sonoplastia: Fernando Ladeira

A Pátria, de olhos sem fundo...




A Pátria, de olhos sem fundo como dois buracos,
vela o teu corpo e põe-te uma promessa nas mãos frias ...
- tu que foste a força dos fracos,
Tu que foste maior que todas as poesias.
Tu, puro e oculto como as cisternas de água,
tu que eras presente e invisível como a aragem,
tu que continuas a ligar-nos pela mágoa
como sempre o fizeste pela coragem
...

Largos versos irrompem do teu silêncio de granito,
e tu vives inteiro em cada grito,
tu que foste maior que todas as poesias

SIDÓNIO MURALHA
Companheira dos homens


voz: Cristina Paiva

música: Durutti Column

sonoplastia: Fernando Ladeira