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Brincava a criança


Brincava a criança
Com um carro de bois.
Sentiu-se brincando
E disse, Eu sou dois!

Há um a brincar
E há outro a saber,
Um vê-me a brincar
E outro vê-me a ver.

Estou por trás de mim
Mas se volto a cabeça
Não era o que eu qu'ria
A volta não é essa...

O outro menino
Não tem pés nem mãos
Nem é pequenino
Não tem mãe ou irmãos.

E brinca comigo
Por trás de onde eu estou,
Mas se volto a cabeça
Já não sei o que sou.

FERNANDO PESSOA
de Poesia do Eu
Ed. de Richard Zenith para a Assírio e Alvim


voz - Cristina Paiva

sonoplastia - Fernando Ladeira

desvendado - Ana Isabel Duarte

Autopsicografia



O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama um coração.

FERNANDO PESSOA
de Poesia do Eu, Ed. Assírio e Alvim

voz - Cristina Paiva

sonoplastia - Fernando Ladeira

desvendado - Sofia Pereira

Antigazetilha




No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada –
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela –
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação:
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não –
No comboio descendente
De Palmela a Portimão...


FERNANDO PESSOA
de Poesia do Eu, Ed. Assírio e Alvim

voz - Cristina Paiva

sonoplastia - Fernando Ladeira

desvendado - Helena Marreiros