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Eu hei-de envelhecer assim
Eu hei-de envelhecer assim,
a fugir à frente dó tempo, sem parar,
a correr atrás do tempo, sem conseguir?
Eu hei-de envelhecer assim,
a sonhar, por ofício, um mês de Abril
cada dia mais distante?
Eu hei-de envelhecer assim,
ao tilintar de telefones e telexes
sem· silêncio para a música e para amar?
Eu hei-de envelhecer assim,
a matar, com afinco, diariamente,
o poeta que em mim ainda não morreu?
Eu hei-de envelhecer assim,
neste enredo de julgamentos e notícias,
sem a mão estendida do meu filho pequeno?
Eu hei-de envelhecer assim,
o fumo das reuniões, as pastas, os papéis
- e a alma, ferida, na gaveta fechada?
Eu hei-de envelhecer assim,
a vida escoando-se, esquálida, nesta sala,
e o sol, como um pássaro, nas árvores da Avenida?
Eu hei-de envelhecer assim,
lá fora a luz da tarde, o riso das raparigas,
o crepitar da cidade,
e eu aqui dentro,
longe de mim e do meu centro,
longe do mar, longe do sol, longe do vento?
JOSÉ CARLOS DE VASCONCELOS
de Repórter do Coração
Ed. Asa
voz - Cristina Paiva
música - Matmos
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Ana Eustáquio
Autor
José Carlos de Vasconcelos,
pepQ
O poema canivete suíço
“O poema é antes de tudo um inutensílio”
Manoel de Barros
E no entanto, Manoel, eu uso-o de nuvem,
faca, canário amarelo, escova de dentes,
papel de embrulho, rio sem foz,
búzio adejante,
chave de fendas, manteiga, mel.
Em vez de canivete suíço, o mais completo,
uso poema, Manoel, teu antes de tudo inutensílio,
poema todo serviço, remédio santo
contra dor, resfriado, picada de insecto,
poema pedra, ponte, rouxinol,
vento, veia, vício vário,
árvore no deserto, relógio de sol,
joelho feminino para um triste solitário.
JOSÉ CARLOS DE VASCONCELOS
Repórter do coração
voz: Cristina Paiva
música: Saint-Saëns por Maria Kliegel
sonoplastia: Fernando Ladeira
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