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Sobre esta praia...
II
Pergunto-me a mim mesmo – tão curioso
como a criança a ser-se adolescente
que mal se entende em como os corpos agem -
a que diversos jogos ou não-jogos
se dão na intimidade estes que vejo
inteiramente nus no areal da praia
entre uma escarpa que os esconde e o mar
que tudo aceita em ondas sucessivas.
Deitados no saber de ao sol queimarem
o mais oculto de si mesmos são
dois jovens e uma jovem misturados.
Um dos rapazes se recosta contra o corpo
do outro rapaz que alonga dorso e pernas,
enquanto neste se debruça e dobra,
pendendo os frescos seios e os cabelos,
o corpo feminino associado ao de ambos.
Mas nada indica excitação nos machos
de quem se pousa o sexo ou distendido pende
em de sereno indiferente como
a só vazia ausência de mistério
que a corpos dava um fervor quente e humano.
São, como deuses, animais sem cio?
Ou são, como animais, humanos que se aceitam?
Ela é de quem? De um deles só, dos dois?
Um deles será dela mas também do outro?
Será cada um dos três dos outros dois?
Ambos os machos serão fêmeas do outro?
Ou só um deles? Qual dos dois? O que
sentado se recosta? O que deitado
aceita contra o seu o corpo recostado?
Os três são muito belos, e não só
daquela de escultura juvenil audácia
cifrada em curvas duras de suaves linhas,
mas igualmente da pureza límpida
que só em torno ao sexo se enegrece um pouco.
Quem se pergunta como eu me pergunto
confessa claramente que distância
existe entre o passado e este presente
assim deitado ao sol à beira de água
como estes três se deitam ou recostam
sem que sequer com as mãos os sexos toquem,
senão o de outrem, mesmo o de si mesmos.
JORGE DE SENA
Oito meditações à beira do Pacífico
Jorge de Sena por Eugénio Lisboa
voz - Cristina Paiva
música - Ryuichi Sakamoto
sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira
Autor
Jorge de Sena
O poema falante
Ser poema é ser alguma coisa
que habitualmente se é sem dar por isso.
Poema puro, de mais nada,
aqui estou eu a dizer que o sou –
– tanto bastará p'ra me negarem.
JORGE DE SENA
Post-Scriptum II
2º volume
Co-edição Moraes Ed. E Imprensa-Nacional Casa da Moeda
voz - Cristina Paiva
música - Johann Sebastian Bach
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Helena Ramos
Autor
Jorge de Sena,
pepQ
Epígrafe
Eu sou
só eu e os meus livros
e a minha música e as minhas ruas em cruz
e um mar sombrio e verde, longe-longe...
E mais nada.
JORGE DE SENA
Post-Scriptum II
2º volume
Co-edição Moraes Ed. e Imprensa-Nacional Casa da Moeda
voz - Cristina Paiva
música - Alvo Noto
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Sofia Pereira
Autor
Jorge de Sena,
pepQ
Requiem de Mozart
Ouço-te, ó música, subir aguda
à convergente solidão gelada.
Ouço-te, ó música, chegar desnuda
ao vácuo centro, aonde, sustentada
e da esférica treva rodeada,
tu resplandeces e cintilas muda
como o silente gesto, a mão espalmada
por sobre a solidão que amante exsuda
e lacrimosa corre pelo espaço
além de que só luz grita o pavor.
Ouço-te lá pousada, equidistante
desse clarão cuja doçura é de aço
como do frágil mas potente amor
que em teu ouvir-te queda esvoaçante.
Ó música da morte, ó vozes tantas
e tão agudas que o estertor se cala.
Ó música da carne amargurada
de tanto ter perdido que ora esquece.
Ó música da morte, ah quantas, quantas
mortes gritaram no que em ti não fala.
Ó música da mente espedaçada
de tanto ter sonhado o que entretece,
sem cor e sem sentido, no fervor
de sublimar-se nesse além que és tu.
Ó vida feita uma detida morte.
Ó morte feita um inocente amor.
Amor que as asas sobre o corpo nu
fecha tranquilas no possuir da sorte.
(...)
JORGE DE SENA
Jorge de Sena por Eugénio Lisboa
Voz - Cristina Paiva
Música - W. A. Mozart
Requiem em ré menor, KV.626;
Lacrimosa
Konzertvereinigung Wiener Staatsopernchor
dir. Norbert Balatsch
Wiener Philharmoniker
dir. Karl Bohm
Sonoplastia - Fernando Ladeira
Autor
Jorge de Sena
De uma poesia...
De uma poesia esperam tanta cousa!
E logo desesperam,
se não ousa.
Mas a poesia nada tem com isso.
Ela não diz nem faz,
nem está sequer ao teu ou meu serviço.
Serão visões da paz,
aquilo que ela traz:
mas quanta guerra para falar nisso!
Uma só coisa ela terá, se for
(e espera ou desespera,
conforme o meu, o teu, o nosso amor):
Inverno ou Primavera,
e sempre uma outra dor.
JORGE DE SENA
Jorge de Sena por Eugénio Lisboa
voz - Cristina Paiva
música - Stephan Micus
sonoplastia - Fernando Ladeira
Autor
Jorge de Sena
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