Mostrar mensagens com a etiqueta Nuno Júdice. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nuno Júdice. Mostrar todas as mensagens

Lembranças de Província





Nesse tempo a vida era triste,
a chuva caía devagar, quando não era inverno ainda,
os cafés cheiravam a tabaco e havia, no chão,
beatas e papéis de bolos. Pela porta entreaberta,
às vezes, entrava um cão vadio, que corria as mesas,
e nenhum criado se preocupava a enxotá-lo. Do
lado dos bilhares, ouvia-se o crepitar seco das bolas, e
o virar dos marcadores era acentuado com sólidas pancadas,
que sobressaltavam os leitores de jornais: folhas
mal impressas, com notícias do campo e o registo de vidas
funcionárias, promoções no Registo Civil e na hierarquia da
Câmara, ou mudanças de casa, para onde homens
de escuro subiam os móveis embrulhados
em mantas; depois, despiam-nos em salas de chão de madeira
encerada de novo, por onde o sol ainda entrava livre-
mente. Então, grandes espelhos reflectiam as janelas sem
cortinas; e, se olhasse para o fundo deles, talvez
se visse a imagem de mulheres furtivas, olhando a sua nudez
rápida em vidros limpos de pó. Imagens proibidas, que
só se podiam guardar no fundo de olhos mudos
como os lábios dessas mulheres, quando passavam em frente das
montras do café, sem um sorriso, levando com elas
o que nunca se há-de saber


NUNO JÚDICE
Poesia reunida


voz - Cristina Paiva

música - Bernardo Sassetti

sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira

Encontro



Encontrei, de noite, uma esfínge.
Não me fez perguntas; nada quis de mim.
As suas asas tinham marcas roxas; as olheiras
desciam pelo rosto. Peguei-lhe nos dedos; puxei-a
para um canto. Não me lembro do que
falámos; a noite descera, há muito.

NUNO JÚDICE
de Poesia reunida 1967-2000, D. Quixote


voz - Cristina Paiva

música - Manual

sonoplastia - Fernando Ladeira

desvendado - Helena Ramos

Flashback




No verão, à noite, as nuvens de mosquitos
caíam sobre as casas. Eu via-os, de volta
das lâmpadas, formando uma névoa agitada
pelo brilho fraco da electricidade. Vinham
dos arrozais, dos pântanos, dos rios estagnados
pelo calor; mas nunca soube para onde iam
quando, passada a noite, a madrugada surgia
limpa e branca, como as casas da aldeia.

Nesse verão, muitas coisas se passaram:
alguns velhos morreram; começaram as obras
na igreja, e as lages com inscrições antigas
deram lugar a um chão de madeira; o
cinema ambulante trouxe alguns filmes
de capa e espada, mas o rapaz salvou-se
sempre; e uma máquina fotográfica registou
os andores que traziam à rua os santos,
na festa de agosto, de mistura com rostos
que julgava esquecidos na minha memória.
(Só o padre, segurando o cálice, mantém a
mesma expressão dura e atenta, como convém
ao representante de deus entre os homens).

Há quem diga que esses verões acabaram. De
facto, as casas já não precisam de mosquiteiros,
o cinema ambulante acabou, e o padre limita-
-se a ser o nome de uma rua, e qualquer dia
já nem isso. Mas quando as luzes se acendem,
ainda com dia, é como se uma névoa surgisse
do passado, com os mosquitos, as falhas
na corrente quando o filme ia a meio, e os
gritos que dávamos no escuro, até a luz voltar.


NUNO JÚDICE
Poesia reunida


voz - Cristina Paiva

música - Pascal Comelade

sonoplastia - Fernando Ladeira

desvendado - Sofia Pereira

Semiologia



Digo: o amor. Há palavras que parecem sólidas,
ao contrário de outras que se desfazem nos dedos.
Solidão. Ou ainda: medo. As palavras, podemos
escolhê-las, metê-las dentro do poema como
se fosse uma caixa. Mas não escondê-las. Elas
ficam no ar, invisíveis, como se não precisassem
dos sons com que as dizemos.


NUNO JÚDICE
Poesia reunida 1967-2000


voz - Cristina Paiva

música - Sétima Legião

sonoplastia - Fernando Ladeira