Mostrar mensagens com a etiqueta Sophia de Mello Breyner Andresen. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sophia de Mello Breyner Andresen. Mostrar todas as mensagens

Quando






Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Obra Poética
Leya | Editorial Caminho

voz - Cristina Paiva

música – Virginia Astley

sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira




25 de Abril




Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
O nome das coisas


voz - Cristina Paiva

Musica - José Afonso

Escuto



Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
de Cem Poemas de Sophia

voz - Cristina Paiva

sonoplastia - Fernando Ladeira

Esta gente



Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E de um tempo justo


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Cem Poemas de Sophia


Voz - Cristina Paiva

Música - Sigur Rós

Sonoplastia - Fernando Ladeira

O dia



Passa o dia contigo
Não deixes que te desviem
Um poema emerge tão jovem tão antigo
Que nem sabes desde quando em ti vivia


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Ilhas


Voz - Cristina Paiva

Música - Future Sound of London

Sonoplastia - Fernando Ladeira

Ausência



Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Mar Novo

voz - Cristina Paiva

música - Goran Bregovic

sonoplastia - Fernando Ladeira

Arte poética V




Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.
Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.
Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.
No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.
Um dia em Epidauro – aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas - coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.
Tempos depois, escrevi estes três versos:

A voz sobe os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
de Ilhas

voz - Cristina Paiva