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O gato e a vespa
O gato foi à escola
enquanto os poetas dormiam.
O gato foi ao leite e ao presunto
enquanto a vespa azucrinava
por ali sob o olhar de um grifo
que pairava.
Enquanto os poetas dormiam.
Vai-te embora, vespa, diz o gato,
deixa estar a neve sossegada dentro
da taça e não faças barulho,
deixa os poetas dormir.
Não é neve, diz o grifo, é uma nêspera,
está sentada ao colo de uma velha,
foi um poeta da cidade* que deixou escrito.
Ora, uma nêspera, exclama a vespa,
é mas é um pêssego. Ai é, responde o gato,
vamos ver.
Enquanto os poetas dormiam.
O grifo rondava a escola como um corvo
em cima de um comboio e gostava de ouvir
o gato a comer o presunto devagar, olhando
para o leite. A vespa zumbia, zumbia como
um tractor e ria-se. Olha que isto é uma escola,
diz o gato, e a escola não é para vespas.
Enquanto os poetas dormiam.
Até que vem a aurora, coberta de chuva,
acordar os poetas e os galos ao mesmo tempo.
Mas o gato insiste, cuidado ó vespa,
ainda cais no leite, olha que os poetas
escrevem palavras que dançam
nas praias douradas, deixa-os dormir.
A vespa não quis saber. Pensava que tinha
o mundo todo a seus pés, o ar, as nuvens,
as pessoas, as colinas, o rio, as bibliotecas,
os barcos. Mas era um pensamento falso,
um engano. Caiu na taça de leite e morreu.
É o que acontece às vespas que chamam
pêssegos às nêsperas.
* O poeta da cidade é Mário Henrique-Leiria “Contos do Gin-Tonic”
que escreveu um poema sobre uma velha que comeu uma nêspera.
JAIME ROCHA
É absolutamente certo nº 9 (Jornal de Poesia)
Edição: Biblioteca Municipal José Baptista Martins de Vila Velha de Ródão
voz - Cristina Paiva
música – The Cure
sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira
ilustração: Elisa Aragão
Autor
Jaime Rocha
Poema a partir de José Mário Silva e Margarida Vale de Gato, a partir de Ruy Belo
Desmanchamos o tempo como se um sobressalto
nos atingisse o corpo e o metesse dentro de uma caixa.
Precisamos de ar,
de respirar no meio da gente,
subir aos degraus com os pássaros,
gritar para o asfalto,
para que acordem as crianças e os velhos,
dizendo que está aí a luz do Verão,
os dias abertos para as encostas e para os rios.
Estamos aqui dentro de uma aldeia
pintada de xisto e de oliveiras,
ouvindo a água que corre das cascatas para os vales
longe das cidades, mas no coração das casas,
como um peixe que voa por cima de um país.
JAIME ROCHA
É absolutamente certo nº6, Abril 2013
(Jornal da Biblioteca Municipal de Vila Velha de Ródão)
voz - Cristina Paiva
música - Joachim Holbek
sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira
Autor
Jaime Rocha
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