Soneto quebrado
Já um gesto mais teu apazigua
o campo largo, a terra sossegada.
Grita uma ave no mar. Um quase nada
Aguentará, logo, nos céus, a Lua.
A meus olhos pesados se insinua
A presença dos anos desejada.
É já, no casto amor, curva fechada
A minha longa espera unida à tua.
Demora a Primavera a quem semeia,
O Verão faz palha de umas ervas verdes.
Perde quem pesca os passos pela areia.
Tudo o que nunca havíamos de ter des-
faz a lenta e aérea tessitura.
Nossa alma é breve. Poesia pura.
VITORINO NEMÉSIO
de Boletim Cultural, VII Série, Dezembro de 1992, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian
voz - Cristina Paiva
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Ana Isabel Duarte
Autor
pepQ,
Vitorino Nemésio
Canção infantil
Era um amieiro.
Depois uma azenha.
E junto
um ribeiro.
Tudo tão parado.
Que devia fazer?
Meti tudo no bolso
para os não perder.
EUGÉNIO DE ANDRADE
de Poesia – Eugénio de Andrade, Primeiros Poemas, Ed. Fundação Eugénio de Andrade
voz - Cristina Paiva
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Sofia Pereira
Autor
Eugénio de Andrade,
pepQ
A salvação do mundo
Não existe num verso nada de útil à salvação do mundo.
O poema não pode ter mais do que uma casa, paredes
caiadas de branco, os azulejos a rebaterem o sol contra
a sombra, dizendo-llne o seu lugar. O poema é o meu pai
em sofrimento na cama do hospital, as mãos inúteis que
lhe afagam a dor, estas mãos tão inúteis percorrendo os
versos ao som das palavras. O poema é circunstância de lugar
em imagens atiradas ao chão, reduz à sombra o sol. A casa
essencial, a do poema, memória e salvação de um homem.
O mundo é útil de poesia. Todos os versos são possíveis.
JORGE REIS-SÁ
de Biologia do Homem, Ed. Quasi
voz - Cristina Paiva
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Sofia Pereira
Autor
Jorge Reis-Sá,
pepQ
Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama um coração.
FERNANDO PESSOA
de Poesia do Eu, Ed. Assírio e Alvim
voz - Cristina Paiva
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Sofia Pereira
Autor
Fernando Pessoa,
pepQ
Esta janela vai dar àquela ...
Esta janela vai dar àquela
janela se o sistema for compatível
e a drive funcionar.
Clicando aqui um outro mundo acede,
com milhares de milhões de sítios a explorar.
Navegando procuro esse destino
onde seja possível voltar a encontrar
o lugar do repouso que no labirinto houve
e o teu rosto por certo procurou.
A luz que me cegar e me chegar
do écran luminoso talvez diga
que o incerto paradeiro em que te encontras
é mais que o prolongamento da ausência
em que te vi na derradeira vez.
O olhar liquefeito sob os ferros.
AMADEU BAPTISTA
de Apeadeiro – Revista de atitudes literárias
Ed. Quasi
voz - Cristina Paiva
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Isabel Teles de Menezes
Autor
Amadeu Baptista,
pepQ
Camões, grande Camões
Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co'o sacrílego gigante;
Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.
Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.
Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!...
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.
BOCAGE
de Obras Escolhidas, Ed. Círculo de Leitores
voz - Cristina Paiva
música - Carlos Paredes
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Ana Isabel Duarte
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