Epígrafe
- A tua única tristeza não é triste, é única.
Por isso
onde encontras a razão perdemos nós a vida.
E. M. DE MELO E CASTRO
de Antologia para Inici-antes
Ed. Ausência
voz - Cristina Paiva
música - dZihan & Kamien
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Sofia Pereira
Autor
E. M. de Melo e Castro,
pepQ
Pretérito imperfeito
O tempo
mais dorido da gramática.
O instante
constante gesto.
Tentacular abraço da memória.
ANA GOÊS
100 poemas recolhidos
voz - Cristina Paiva
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Maria Almira Soares
XVI
A vida
às portas da vida
e o azul masculino de um rio
Amor Ardente
de forma distinta
MÁRIO CESARINY
de Pena Capital
Assírio & Alvim
voz - Cristina Paiva
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Helena Marreiros
Autor
Mário Cesariny,
pepQ
Era um redondo vocábulo
Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Nos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa
JOSÉ AFONSO
Venham mais cinco
Vozes - Cristina Paiva, Teresa Silva Carvalho, José Afonso
Música - Goran Bregovic e José Afonso
Sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Helena Ramos
Autor
José Afonso,
pepQ
Encontro
Encontrei, de noite, uma esfínge.
Não me fez perguntas; nada quis de mim.
As suas asas tinham marcas roxas; as olheiras
desciam pelo rosto. Peguei-lhe nos dedos; puxei-a
para um canto. Não me lembro do que
falámos; a noite descera, há muito.
NUNO JÚDICE
de Poesia reunida 1967-2000, D. Quixote
voz - Cristina Paiva
música - Manual
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Helena Ramos
Autor
Nuno Júdice,
pepQ
Fala a preguiça
Eu gosto tanto, tanto ,tanto
de estar quieta, muito parada,
de fazer nada, coisa nenhuma,
e de fazer isso, que é não fazer
e de não estar, não ir, também.
Eu cá faço nada e todos
me dizem que faço isso muito bem.
Faço arroz de nada, pudim de nada
(que não é nada, está-se mesmo a ver)
e é tudo muito bom, delicioso,
só por não ser preciso fazer.
Eu faço nada, sou um nadador,
mas não daqueles que nadam mesmo,
O que é cansativo, tão maçador;
é que nadar, cá para mim,
tem um defeito insuportável:
aquele erre que está no fim .
E não digam que não faço nada
porque eu faço isso o mais que posso
e se não faço mais é porque mesmo nada
fazê-lo muito é uma maçada.
Não quero ir. Ainda é cedo.
Que pressa é essa? Não pode ser!
Deixem-me estar porque eu hoje tenho
bastante nada para fazer.
ÁLVARO MAGALHÃES
de O Brincador
música - Erik Satie
voz - Cristina Paiva
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Helena Ramos
Autor
Álvaro Magalhães,
pepQ
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