Escuro



Pergunto-me desde quando
deixou de haver futuro
nas janelas.

Janeiro dói nos olhos
como areia
e tu e eu estamos para sempre
sentados às escuras
no Verão.

RUI PIRES CABRAL
O futuro em anos-luz
100 anos.100 poetas. 100 poemas
selecção e organização valter hugo mãe



voz: Cristina Paiva

música: Vibrasphere

sonoplastia: Fernando Ladeira

25 de Abril



Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
O nome das coisas


voz - Cristina Paiva

Musica - José Afonso

O poema canivete suíço



“O poema é antes de tudo um inutensílio”
Manoel de Barros

E no entanto, Manoel, eu uso-o de nuvem,
faca, canário amarelo, escova de dentes,
papel de embrulho, rio sem foz,
búzio adejante,
chave de fendas, manteiga, mel.

Em vez de canivete suíço, o mais completo,
uso poema, Manoel, teu antes de tudo inutensílio,
poema todo serviço, remédio santo
contra dor, resfriado, picada de insecto,

poema pedra, ponte, rouxinol,
vento, veia, vício vário,
árvore no deserto, relógio de sol,
joelho feminino para um triste solitário.


JOSÉ CARLOS DE VASCONCELOS
Repórter do coração



voz: Cristina Paiva

música: Saint-Saëns por Maria Kliegel

sonoplastia: Fernando Ladeira

Os meus amigos andam perdidos



Os meus amigos andam perdidos
um pouco por toda a parte.
De Lausanne ao Rio é o vasto mundo
dos desencontros, os mesmos que
de Naxos a Londres e de Manhattan ao Cabo
animam exílios vários.

Andam em diáspora os meus amigos.
Une-os, porventura, a mesma nostalgia.

Feridas antigas hipotecadas
ao futuro.


EDUARDO PITTA
O futuro em anos-luz
100 anos.100 poetas. 100 poemas
selecção e organização valter hugo mãe



voz: Cristina Paiva

música: Trentemoller

sonoplastia: Fernando Ladeira

Histórias do país de Helena



Havia marinheiros
No país de Helena
Que morriam ao pôr-do-sol

E havia Helena que sonhava
Fazer um dia tranças às ondas
E um berço muito grande para o mar


DANIEL FARIA
Oxálida
obra incluída em Poesia Daniel Faria


voz: Cristina Paiva

música: Pantha du Prince

sonoplastia: Fernando Ladeira

Café do molhe



Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

MANUEL ANTÓNIO PINA
Todas as Palavras, poesia reunida
Edição: Assírio & Alvim


voz: Cristina Paiva

música: Egberto Gismonti

sonoplastia: Fernando Ladeira