Os peixes
Dormem numa cama de algas
entre rochas e corais
só não podem bronzear-se
na extensão dos areais
Porque peixes fora de água
não conseguem respirar
mexem as guelras depressa
e voltam logo ao mar
Os peixes de muitas cores
das águas fundas dos mares
sabem por ovos fresquinhos
com peixes aos milhares (...)
JOSÉ JORGE LETRIA
Letra de uma canção escrita para o programa de televisão "A Arca de Noé"
voz - Cristina Paiva
música - Lemon Jelly
sonoplastia - Fernando Ladeira
Autor
José Jorge Letria
Os apanhadores de conquilhas
Uma família inteira
a apanhar conquilhas
É o pai é a mãe
é os filhos é as filhas
todos acocorados
na sôfrega função
O gotejar do tempo
é coisa que angustia
se não conduz a nada
se não enche vasilha
por isso esta família
sente que cumpre o dia
se ouvir dentro do plástico
o gluglu da conquilha
E eu que sempre apanhei
conchas mas sem miolo
neste imenso areal
desde os confins da infância
tenho que me render
ao triste desconsolo:
até estas gaivotas
só andam à ganância:
cada vez que mergulham
trazem peixe no bico!
E pensar que cantei
a esbelta liberdade
de suas brancas asas !
Por hoje aqui me fico
sofrendo em solidão
esta crua verdade:
Não há gestos gratuitos
por mais que diga ou faça
famílias ou gaivotas
a cada um seu isco
em serviço ou em férias
nenhum voo é de graça
só entendem o mar
se produzir marisco
Mas e eu que faço eu
a pé por estas ilhas
com ar de quem levou
uma pedrada na asa
senão catar também
umas tristes conquilhas
estas rimas forçadas
que vou levar para casa?!
TERESA RITA LOPES
voz - Cristina Paiva
música - Fridge
sonoplastia - Fernando Ladeira
Autor
Teresa Rita Lopes
A caminhada
Nessa mata ninguém mata
a pata que vive ali,
com duas patas de pata,
pata acolá, pata aqui.
Pata que gosta de matas
visita as matas vizinhas,
com as suas duas patas
seguidas de dez patinhas.
E cada patinha tem,
como a pata lá da mata,
duas patinhas também
que são patinhas de pata
SIDÓNIO MURALHA
A dança dos pica-paus
voz - Cristina Paiva
sonoplastia - Fernando Ladeira
Autor
Sidónio Muralha
Curiosidades estéticas
O mais importante na vida
É ser-se criador - criar beleza.
Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.
Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir uma voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.
Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.
ANTÓNIO BOTTO
Canções
voz - Cristina Paiva
música - Laurie Anderson
sonoplastia - Fernando Ladeira
Autor
António Botto
Viagens com o Charley (excerto)
(...) Quando eu era muito novo e sentia em mim o impulso irreprimível de estar em qualquer outro sítio, foi-me assegurado por pessoas de idade madura que a maturidade curaria este desejo ardente. Quando os anos me indicavam como amadurecido, o remédio prescrito foi a meia-idade. Na meia-idade, asseguraram-me que uns anos mais acalmariam a minha febre, e agora, que tenho cinquenta e oito, talvez a senilidade o consiga. Nada surtiu efeito. Quatro sopros roufenhos do apito de um navio ainda arrepiam o cabelo da minha nuca e põem os meus pés a sapatear. O som de um avião de jacto, de um motor a aquecer, até o bater de cascos ferrados no pavimento, provocam o antigo estremeção, a boca seca e o olhar vago, o calor das palmas das mãos e a agitação violenta do estômago, aos pulos sob a caixa das costelas. Por outras palavras, não melhoro, ou, indo mais longe, quem foi vadio é sempre vadio. Receio que a doença seja incurável. (...)
JOHN STEINBECK
Viagens com o Charley
tradução - Sousa Victorino
voz - Cristina Paiva
música - Kraftwerk por Alexander Balanescu
sonoplastia - Fernando Ladeira
Autor
John Steinbeck
Nova York num Poeta (excerto)
Senhoras e senhores:
Quando falo à frente de muitas pessoas parece-me sempre que errei na porta. Mãos amigas empurraram-me, e aqui estou. Metade das pessoas vive perdida entre cenários, árvores pintadas, fontes de lata e, quando julga que encontrou o seu quarto ou um círculo de morno sol, encontra-se com um caimão que a engole ou... com o público, como eu neste momento. E hoje não tenho mais espectáculo além de uma poesia amarga, mas viva, que julgo capaz de abrir os olhos à força de chicotadas que lhe dei. (...)
De qualquer forma, há que ser claro. Hoje não venho aqui para vos entreter. Nem quero, nem me importa, nem tenho vontade. Melhor dizendo, vim lutar. Lutar corpo a corpo com uma massa tranquila, pois o que vou fazer não é uma conferência, é uma leitura de poesias, carne minha, alegria minha e sentimento meu, e preciso de me defender deste enorme dragão que tenho à frente, que me pode comer com os trezentos bocejos das suas trezentas cabeças defraudadas. E a luta é esta; quero veementemente comunicar convosco já que vim, já que estou aqui, já que saio um instante do meu grande silêncio poético e não quero dar-vos mel, porque o não tenho, apenas areia, ou cicuta, ou água salgada. Luta corpo a corpo onde me não importa ser vencido.
Quando falo à frente de muitas pessoas parece-me sempre que errei na porta. Mãos amigas empurraram-me, e aqui estou. Metade das pessoas vive perdida entre cenários, árvores pintadas, fontes de lata e, quando julga que encontrou o seu quarto ou um círculo de morno sol, encontra-se com um caimão que a engole ou... com o público, como eu neste momento. E hoje não tenho mais espectáculo além de uma poesia amarga, mas viva, que julgo capaz de abrir os olhos à força de chicotadas que lhe dei. (...)
De qualquer forma, há que ser claro. Hoje não venho aqui para vos entreter. Nem quero, nem me importa, nem tenho vontade. Melhor dizendo, vim lutar. Lutar corpo a corpo com uma massa tranquila, pois o que vou fazer não é uma conferência, é uma leitura de poesias, carne minha, alegria minha e sentimento meu, e preciso de me defender deste enorme dragão que tenho à frente, que me pode comer com os trezentos bocejos das suas trezentas cabeças defraudadas. E a luta é esta; quero veementemente comunicar convosco já que vim, já que estou aqui, já que saio um instante do meu grande silêncio poético e não quero dar-vos mel, porque o não tenho, apenas areia, ou cicuta, ou água salgada. Luta corpo a corpo onde me não importa ser vencido.
FEDERICO GARCIA LORCA
de Lorca Nova York num Poeta
tradução - António Moura
voz - Cristina Paiva
música - Scott Joplin
piano - Joaquim Coelho
Autor
Federico Garcia Lorca
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