Flashback
No verão, à noite, as nuvens de mosquitos
caíam sobre as casas. Eu via-os, de volta
das lâmpadas, formando uma névoa agitada
pelo brilho fraco da electricidade. Vinham
dos arrozais, dos pântanos, dos rios estagnados
pelo calor; mas nunca soube para onde iam
quando, passada a noite, a madrugada surgia
limpa e branca, como as casas da aldeia.
Nesse verão, muitas coisas se passaram:
alguns velhos morreram; começaram as obras
na igreja, e as lages com inscrições antigas
deram lugar a um chão de madeira; o
cinema ambulante trouxe alguns filmes
de capa e espada, mas o rapaz salvou-se
sempre; e uma máquina fotográfica registou
os andores que traziam à rua os santos,
na festa de agosto, de mistura com rostos
que julgava esquecidos na minha memória.
(Só o padre, segurando o cálice, mantém a
mesma expressão dura e atenta, como convém
ao representante de deus entre os homens).
Há quem diga que esses verões acabaram. De
facto, as casas já não precisam de mosquiteiros,
o cinema ambulante acabou, e o padre limita-
-se a ser o nome de uma rua, e qualquer dia
já nem isso. Mas quando as luzes se acendem,
ainda com dia, é como se uma névoa surgisse
do passado, com os mosquitos, as falhas
na corrente quando o filme ia a meio, e os
gritos que dávamos no escuro, até a luz voltar.
NUNO JÚDICE
Poesia reunida
voz - Cristina Paiva
música - Pascal Comelade
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Sofia Pereira
Autor
Nuno Júdice,
pepQ
Meu menino ino, ino
Dos versos que exprimem,
Estou cansado!
Das palavras que explicam,
Estou cansado!
Dos gestos que explodem,
Estou cansado!
Ai, embala-me, fútil, e frágil, no ó-ó dos teus versos,
Ai, encosta-me ao peito...!
Mais não quero que ser embalado.
JOSÉ RÉGIO
de As encruzilhadas de Deus, Ed. Presença-Atlântida
voz - Cristina Paiva
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Sofia Pereira
Autor
José Régio,
pepQ
Quadra
Mais longe estás se houve início
mais perto se o tempo finda
e a rosa que em ti abriu
é em mim botão ainda.
AGOSTINHO DA SILVA
de Quadras inéditas, Ed. Ulmeiro
voz - Cristina Paiva
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Ana Isabel Duarte
Autor
Agostinho da Silva,
pepQ
A caminhada
Nessa mata ninguém mata
a pata que vive ali,
com duas patas de pata,
pata acolá, pata aqui.
Pata que gosta de matas
visita as matas vizinhas,
com as suas duas patas
seguidas de dez patinhas.
E cada patinha tem,
como a pata lá da mata,
duas patinhas também
que são patinhas de pata
SIDÓNIO MURALHA
de A dança dos pica-paus
voz - Cristina Paiva
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Ana Isabel Duarte
Autor
pepQ,
Sidónio Muralha
Guardanapos
Guardanapos napos à esquerda quando se começa
guardanapos napos desdobrados em cima das coxas
guardanapos napos discretos no quente do colo
guardanapos napos onde caem migalhas e pingos de sopa
guardanapos napos pontuação do passar pelos lábios
guardanapos napos hirtos ou fleumáticos
guardanapos napos franjas em mãos nervosas
guardanapos!
guardanapos! que estranha palavra portuguesa!
SALETTE TAVARES
de Antologia da Poesia Experimental Portuguesa, Ed. Angelus Novus
voz - Cristina Paiva
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Maria Almira Soares
Autor
pepQ,
Salette Tavares
Cantiga, partindo-se
Senhora, partem tam tristes
Meus olhos por vós, meu bem,
Que nunca tam tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.
Tam tristes, tam saudosos,
Tam doentes da partida,
Tam cansados, tam chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes
Tam fora d’esperar bem,
Que nunca tam tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.
JOÃO ROIZ DE CASTELO BRANCO
de Os dias do amor, Ed. Ministério dos livros
voz - Cristina Paiva
sonoplastia - Fernando Ladeira
desvendado - Helena Marreiros
Autor
João Roiz de Castelo Branco,
pepQ
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