Atenção, detetive
Se você for detetive
Descubra por mim
Que ladrão roubou o cofre
Do banco do jardim
E que padre disse amém
Para o amendoim
Se você for detetive
Faça um bom trabalho
Me encontre o dentista
Que arrancou o dente do alho
E a vassoura sabida
Que deixou a louca varrida
Se você for detetive
Um último lembrete
Onde foi que esconderam
As mangas do colete
E quem matou o piolho
Da cabeça do alfinete
JOSÉ PAULO PAES
Poemas para brincar
Voz - Cristina Paiva
Música: The Future Sound of London
Sonoplastia - Fernando Ladeira
Autor
José Paulo Paes
Para a feira do livro
Folheada, a folha de um livro retoma
o lânguido e vegetal da folha folha,
e um livro se folheia ou se desfolha
como sob o vento a árvore que o doa;
folheada, a folha de um livro repete
fricativas e labiais de ventos antigos,
e nada finge vento em folha de árvore
melhor do que vento em folha de livro.
Todavia a folha, na árvore do livro,
mais do que imita o vento, profere-o:
a palavra nela urge a voz, que é vento,
ou ventania varrendo o podre a zero.
Silencioso: quer fechado ou aberto,
inclusive o que grita dentro; anónimo:
só expõe o lombo, posto na estante,
que apaga em pardo todos os lombos;
modesto: só se abre se alguém o abre,
e tanto o oposto do quadro na parede,
aberto a vida toda, quanto a música,
viva apenas enquanto voam suas redes.
Mas apesar disso e apesar de paciente
(deixa-se ler onde queiram), severo:
exige que lhe extraiam, o interroguem;
e jamais exala: fechado, mesmo aberto.
JOÃO CABRAL DE MELO NETO
de João Cabral de Melo Neto
Selecção de António Carlos Secchin
Música: Aughra & Mosh Patrol
Voz - Cristina Paiva
Sonoplastia - Fernando Ladeira
Autor
João Cabral de Melo Neto
Para um livro de leituras escolares
não leias odes, meu filho, lê antes horários:
são mais exactos. desenrola as cartas marítimas
antes que seja tarde, toma cuidado, não cantes.
o dia vem vindo em que hão-de outra vez pregar as listas
nas portas e marcar a fogo no peito os que digam
não. aprende a passar despercebido, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de bilhete de identidade, de cara.
treina-te nas pequenas traições, na mesquinha
fuga quotidiana. úteis as encíclicas
mas para acender o lume, e os manifestos
são bons para embrulhar a manteiga e o sal
dos indefesos, a cólera e a paciência são precisas
para assoprar-se nos pulmões do poder
o pó fino e mortal, moído por
aqueles que aprenderam muito
e são meticulosos por ti.
HANS MAGNUS ENZENSBERGER
Tradução de Jorge de Sena
Poesia do século XX(de Thomas Hardy a C.V. Cattaneo)
Música - Anónimo por Yankele
Voz - Cristina Paiva
Sonoplastia - Fernando Ladeira
Autor
Hans Magnus Enzensberger
Bairro livre
Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa toda a gente se pode enganar
disse o pássaro
JACQUES PRÉVERT
Tradução de Eugénio de Andrade
de Trocar de Rosa
Música - Pascal Comelade
Voz - Cristina Paiva
Sonoplastia - Fernando Ladeira
Autor
Jacques Prévert
Aula inaugural
É verdade que na Ilíada não havia tantos heróis como na guerra do Paraguai…
Mas eram bem falantes
E todos os seus gestos eram ritmados como num balé
Pela cadência dos metros homéricos.
Fora do ritmo, só há danação.
Fora da poesia, não há salvação.
A poesia é dança e a dança é alegria.
Dança, pois, teu desespero, dança
Tua miséria, teus arrebatamentos,
Teus júbilos
E,
Mesmo que temas imensamente a Deus,
Dança como David diante da Arca da Aliança.
Mesmo que temas imensamente a morte
Dança diante de tua cova.
Tece coroas de rimas…
Enquanto o poema não termina
A rima é como uma esperança
Que eternamente se renova.
A canção, a simples canção, é uma luz dentro da noite.
(Sabem todas as almas perdidas…)
O solene canto é um archote nas trevas.
(Sabem todas as almas perdidas…)
Dança, encantado dominador de monstros,
Tirano das esfinges,
Dança, Poeta.
E sob o aéreo, o implacável, o irresistível ritmo de teus pés,
Deixa rugir o Caos atônito…
MÁRIO QUINTANA
Apontamentos de história sobrenatural
Voz - Cristina Paiva
Música - António Carlos Jobim e Newton Mendonça por Toots Thielemans
Sonoplastia - Fernando Ladeira
Autor
Mário Quintana
Epígrafe para a nossa solidão
Cruzámos nossos olhos em alguma esquina
demos civicamente os bons dias:
chamar-nos-ão vais ver contemporâneos
RUY BELO
Todos os poemas
Voz - Cristina Paiva
Música - José Afonso
Sonoplastia - Fernando Ladeira
Autor
Ruy Belo
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