O Limpa - Palavras



Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.

Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.

A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não pára de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papeis no ar
e é preciso fechá-la na arrecadação.

No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,
leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.

A palavra obrigado agradece-me.
As outras não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.

Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes a mão para apanhares
a palavra barco ou a palavra amor.

Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.

ÁLVARO MAGALHÃES
O Limpa-Palavras e Outros Poemas

voz - Cristina Paiva

música - Múm

sonoplastia - Fernando Ladeira

Onde estará esse leitor...




Onde estará esse leitor
Que não soletra nem recita?
Que não tropeça nas imagens
Que não ofende os nossos ritmos
Que não destroi as nossas flores?

Onde estará esse leitor,
Onde estarão esses leitores?


CARLOS QUEIROZ
Breve Tratado de Não-Versificação


voz - Cristina Paiva

Búzio



Trouxeram-me um búzio.

Dentro dele canta
um mar de mapa.
Meu coração
enche-se de água
com peixinhos
de sombra e prata.

Trouxeram-me um búzio.


FEDERICO GARCIA LORCA
Canções


tradução - José Bento

voz - Cristina Paiva

sonoplastia - Fernando Ladeira

Sobre o vaguear pelo matagal a apanhar violetas



Isto não tem graça nenhuma e eu recomendaria qualquer outro tipo de actividade. Visitai antes um amigo doente. Se isso for impossível, vejam um espectáculo ou tomem um banho quente e leiam. Qualquer coisa é melhor do que ir para um matagal com um daqueles sorrisos vazios e amontoar flores num cesto. Quando derdes por vós estareis a saltaricar de um lado para o outro. Afinal, o que é que se vai fazer com as violetas depois de as ter apanhado? «Ora, pô-las numa jarra», dizeis. Que resposta tão estúpida. Hoje em dia podeis telefonar à florista e encomendá-las. Deixai que seja ela a vaguear pelo matagal, é para isso que se lhe paga. Assim, se houver trovoada ou se por acaso aparecer um enxame de abelhas, a florista é que será empurrada para o monte Sinai.
A propósito, não penseis, por causa disto, que sou insensível às alegrias da natureza, embora tenha chegado à conclusão de que como puro divertimento não há nada melhor do que passar quarenta e oito horas na Cidade de Borracha e Espuma em meados de Agosto. Mas isso é outra história.

WOODY ALLEN
Sem Penas

tradução - Salvato Teles de Meneses

voz - Cristina Paiva

música - Bennie Moten

sonoplastia - Fernando Ladeira

Canção



De borco
no barco.
(De bruços
no berço...)
O braço é o barco
O barco é o berço.

Abarco e abraço
o berço
e o barco.

Com desembaraço
embarco
e desembarco.

De borco
no berço...
(De bruços
no barco...)


CECÍLIA MEIRELES
Obra Poética

voz - Cristina Paiva

música - Partial Arts

sonoplastia - Fernando Ladeira

Os teclados (excerto)



(...)Tudo ficava suspenso, no vazio. E depois o som acontecia: a chuva, o vento, o mar. O vento nas folhas, no caminho de terra, nos telhados, na chuva. Agora (...) ouvia a chuva, as formas fugidias da água. (...)
Gostava de vaguear (...), ouvindo o que havia para ouvir – buzinas de carros, vozes, motores, barulho de oficinas, pancadas mecânicas, chapas de metal zunindo, portas batendo, passos de pessoas na calçada. Por vezes música articulada, no meio dos sons: o canto alto de um pregão atirado ao ar, um trilo de pássaro, o assobio do amolador de tesouras, o acordeão de um cego numa esquina.
Mas tudo o resto – buzinas, vozes, sirenes, máquinas, - podia ser também uma forma de música. E mesmo o silêncio fazia parte de ouvir – o silêncio entre uma coisa e outra, a respiração ou a pausa, antes que outra coisa acontecesse.
Ouvir era deixar o mundo entrar em si. (...)

TEOLINDA GERSÃO
Os teclados

voz - Cristina Paiva

música - Wolfgang Amadeus Mozart

sonoplastia - Fernando Ladeira

do espectáculo A de Mozart