Quando
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Obra Poética
Leya | Editorial Caminho
voz - Cristina Paiva
música – Virginia Astley
sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira
Míssil
Dentro de minutos,
com estrondo,
vai cair.
Quantos meninos
neste instante
ainda estão a rir?
JOÃO PEDRO MÉSSEDER
Pequeno livro das coisas
ilustração - Rachel Caiano
Ed. Caminho
voz - Cristina Paiva
música – Visit Venus
sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira
Autor
João Pedro Mésseder
Chamam-lhe amor
Há que dar às coisas nomes curtos e simples,
para que a palavra nos venha aos lábios
obedientemente canina,
mas o certo
é que lhe poderíamos dar um outro nome
- qualquer um -
Boby, Tejo ou Lassie, fora o amor uma cadela
parida com as tetas maceradas a roçar o chão.
Qualquer nome lhe daríamos, ao amor
e o resultado seria sempre o mesmo:
Um ganido tímido
a morder-nos de cio o coração da noite.
RITA TABORDA DUARTE
Roturas e Ligamentos
Ilustração - André da Loba
Ed. Abysmo
voz - Cristina Paiva
música – Lou Reed
sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira
Autor
Rita Taborda Duarte
Clarice Lispector, a senhora...
Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos.
ADÍLIA LOPES
Obra
Ed. Mariposa Azual
voz - Cristina Paiva
música – Solvent
sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira
Autor
Adília Lopes
O caminho inventa o caminho...
O caminho inventa o caminho as poeiras transformam-se em
roda voadora abre os seus próprios caminhos a seres que
andam uns sobre os outros
Caminhos cavados nos restos de outros caminhos
escrevíamos as palavras sobre as coisas
ou
escrevíamos as coisas sobre as palavras
ADONIS
O arco-íris do instante
Ed. D. Quixote
tradução - Nuno Júdice
voz - Cristina Paiva
música – Burial
sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira
Autor
Adonis
Diálogo
Nunca pensei num poema como sendo um monólogo que se originou algures no fundo da minha boca ou da minha mão
Um poema coloca-se sempre nas condições de um diálogo virtual
A hipótese de um encontro a hipótese de uma resposta a hipótese de alguém
Mesmo na página: a resposta que a linha supõe, bem como as deslocações, os formatos
Alguma coisa vai sair do silêncio, da pontuação, do branco subir até mim
Alguém vivo, com nome: um poema de amor
Mesmo quando a omissão, a falta de direcção, a direcção pronominal tornam possível essa translação: encontra-se um leitor perante a página, diante da voz do poema como
no instante do seu nascimento
Ou da sua recepção: leitor leitor ou leitor autor
Este poema é-te destinado e nada encontrará
JACQUES ROUBAUD
Sud-Express, poesia francesa de hoje
tradução - Urbano Tavares Rodrigues
voz - Cristina Paiva
música – Test Dept
sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira
fotografia de Jacques Roubaud – Ben Handz
Autor
Jacques Roubaud
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