Soneto pateta III



Entrou um serafim
                              no meu jardim
que cheiro a alecrim…

Da rosa carmim
                              para o jasmim
o canto do clarim
tramp’lim
                 do arlequim
                              p’ra mim.


SALETTE TAVARES
366 poemas que falam de amor
Org. Vasco Graça Moura
Ed. Quetzal




voz - Cristina Paiva

música - John Cage

sonoplastia - Fernando Ladeira

desvendado - Ana Isabel Duarte

Hora de ponta



Apanhar um lugar a esta hora é uma sorte, poder olhar
pela janela e fingir que tenho imunidade diplomática,
que estou de lá do vidro com o hálito das folhas, o sabor
a hortelã e um ar fresco interrompido pela velha senhora
a quem cedo o assento e um sorriso enquanto me agradece
de nada, de ir agora em pé empurrada, de cá do vidro
a apanhar uma overdose de realidade com o bafo quente
do homem gordo na minha orelha, com a mão livre
apertada contra o peito contra o visco da hora apinhada
na minha pele pública, na minha pele de todos.
No banco em frente uma mulher afaga a neta com o sorriso
doce e cansado, os olhos brilhantes; a candura intacta
toma-me toda como se eu fosse um anjo
descendo à terra com um corpo real para que a minha pele
receba a dádiva da tua, aceite os cheiros de um dia de trabalho,
o calor excessivo, a proximidade insustentável e leia no teu rosto
cada mandamento nos solavancos que nos atiram uns para
os outros. No teu rosto à hora de ponta aprendo a compaixão
até sair na próxima paragem com um suspiro de alívio.

ROSA ALICE BRANCO
366 poemas que falam de amor
Org. Vasco Graça Moura
Ed. Quetzal



voz - Cristina Paiva

música - Max Richter

sonoplastia - Fernando Ladeira

desvendado - Helena Ramos

Nada direi



Nada direi do crocodilo.
É um bicho tímido, reservado, a quem a realidade magoa os dentes.

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA
Animal, animal – Um bestiário poético
Ed. Assírio e Alvim



voz - Cristina Paiva

música - Penguin Cafe Orchestra

sonoplastia - Fernando Ladeira

desvendado - Helena Ramos

A rola



O cheiro acre da penugem nova
da jovem rola fiel, solitária,
dos próximos pinheiros exilada,
entontecia os seres que a rodeavam
para escutar a paz do seu arrulho
- os seres tão diversos de três reinos,
o gato negro, a pedra e eu no mundo.

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
Animal, animal – Um bestiário poético
Ed. Assírio e Alvim


voz - Cristina Paiva

música - Brian Eno

sonoplastia - Fernando Ladeira

desvendado - Maria Almira Soares

A flor que havia na água parada - I



Antes este veio
descia sem pressa
não era tão frio
como hoje parece.

Era um rio quente
sem fundo nem fim
ausente-presente
bem dentro de mim.

Quase que parado
via-o eu às vezes
em dia feriado
de seis em seis meses.

Os barcos quietos
boiavam, luziam,
fechados, secretos,
e logo seguiam.

Os velhos, fumando,
olhavam, sem ver,
o rio passando
sem nunca correr.

A virgem tranquila,
terrena, bisonha,
mete os pés na argila,
olha a água e sonha.

MARIA JUDITE DE CARVALHO
A flor que havia na água parada
Ed. Europa-América

voz - Cristina Paiva

música - Kangding Ray

sonoplastia - Fernando Ladeira

desvendado - Maria Almira Soares

Dizem que é jardim



Dizem que é jardim
porque repousa

E diz-se também que se ilumina
em pausas
repentinas

Mas que dizer da trama
em movimento?

Que dizer do vento?
Que se prepara o incêndio
aqui na folha

ANTÓNIO RAMOS ROSA
A mão de água e a mão de fogo – Antologia Poética
Ed. Fora do texto


voz - Cristina Paiva

música - Bjork

sonoplastia - Fernando Ladeira

desvendado - Isabel Teles de Menezes