Quando sós à boleia do crepúsculo [para o Fernando Guerreiro]
Não mais a literatura, os seus
fúteis e imperiosos desígnios
- julgamos dizer, insistindo
numa ourivesaria do terror
e em gestos que sabem o quanto
chegam tarde. Quando sós,
à boleia do crepúsculo, dizemos
coisas assim, mentimos com
os dentes todos que não temos.
E a mentira (a literatura)
é ainda a improvável derrota
de que não nos salvaremos
nunca. Tão igual à vida, portanto:
pouso o copo, recupero o fôlego,
fumo uma silepse. Sei que vou morrer.
E isso que - talvez - nos diz
é uma evidência que escurece
(tivemos por amigo o desconforto).
Quanto ao mais, vamos andando.
Casados ou sozinhos. Mortos.
MANUEL DE FREITAS
[SIC]
voz - Cristina Paiva
música – Terje Rypdal
sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira
fotografia de Manuel de Freitas – ?
Autor
Manuel de Freitas
Os badamecos
Os badamecos
tão engraçados
sujam paredes,
são malcriados.
Andam em férias
como vadios.
Cheiram que fedem,
de mal lavados.
Têm brinquedos,
alguns perigosos,
adquiridos
pelos mais ranhosos.
E quando dormem
o seu soninho,
mijam na rua,
sonham-se grandes.
Nunca se faça
mal aos meninos,
à linda graça
de nós tontinhos.
Que nos lembremos
sempre aos demais:
Casa de filhos,
escola de pais!
RUY CINATTI
Memória Dividida
voz - Cristina Paiva
música – Goran Bregovic
sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira
pintura de Ruy Cinatti - Maluda
ilustração - Laurent Lufroy
Autor
Ruy Cinatti
sobreiro inútil
sobre um canto
escuro, dentro de
uma grande árvore
vivia um homem
de emoções reprimidas.
reprimidas, dizes tu?
bem, não reprimidas...
afugentadas.
ah, afugentadas é diferente.
sim... era um homem obrigado
a viver em exílio por ter
emoções fortes, um
homem marginalizado
pela incompreensão e por
julgamento precipitados...
triste, meu caro,
tendes uma história algo triste.
uma pessoa julgada
precipitadamente
que se tornou um peso
morto, sabeis? uma daquelas
pessoas de ambições destruídas
e de sonhos esmigalhados
obrigado a reprimir-se
e a viver na sombra
do que uma vez foi...
como eu disse...
um peso morto.
DIOGO LOPES
ContraBaixo
voz - Cristina Paiva
música – The Cinematic Orchestra
sonoplastia - Fernando Ladeira
fotografia – Nuno Ferreira Santos e Fernando Ladeira
Autor
Diogo Lopes
Chama
Era uma vez uma chama sozinha. Procurava outra. Precisava dela.
Quase a extinguir-se, viu-a. Aproximou-se a custo. Perguntou-lhe:
- Como te chamas?
- Chama.
Num último alento, a chama sozinha gritou-lhe o nome:
- Chama. Chama. Chama.
Abraçaram-se. Foi um grande incêndio.
ANTÓNIO TORRADO
O conta-gotas
voz - Cristina Paiva
música - John Zorn
sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira
ilustrações - Gémeo Luís
Autor
António Torrado
Um dia guardei num caderno
Um dia guardei num caderno
o caderno escolar que a senhora maria
me ofereceu no primeiro dia de escola
uma palavra na verdade perdida
porque o caderno se perdeu
e a senhora maria coitada
sempre me perguntava pelo caderno
onde ela não sabia que houvera uma palavra
guardada a senhora maria envelheceu
morreu e eu percorro o mesmo caminho
esquecido já do caderno onde perdi
uma palavra cujo único valor
era o de poder ser guardada não
acontece isso com todas as palavras
e por isso são muito raras
as palavras que se oferecem
em cadernos com a eternidade garantida.
CARLOS ALBERTO MACHADO
A Realidade Inclinada
voz - Cristina Paiva
música - Durutti Column
sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira
Autor
Carlos Alberto Machado
Status Report
sou comarca onde parou de chover
e quem não se lembra da sanguechuva
que foi em tempos este coração
já não tenho a vida toda (faço trinta
o mês que vem) e a verdade é que nem
na morte se pôde alguma vez confiar
muito mal contado, isso da morte
MIGUEL-MANSO
Tojo - Poemas escolhidos
voz - Cristina Paiva
música - Pascal Comelade
sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira
Autor
Miguel Manso
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